obliquamente

Obliqua Mente

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A linha geométrica designada como “oblíqua” parece tornar-se aqui fecunda, já que qualquer aproximação a uma obra de arte, e de entre as diferentes artes, à literatura em particular, usará irremediavelmente de um filtro ou viés que é o da subjectividade tanto a de quem lê e comenta como a do próprio sujeito artista. Por isso, razão parece terem os versos de Emily Dickinson, quando neles se aconselha procedimentos oblíquos no discurso, embora o contexto em que a declaração é feita mostre a intenção de obliquidade como apenas uma possibilidade entre outras. Julgo porém não ser possível existir arte sem subterfúgio ou fingimento, mesmo quando nela se confessa “dizer a verdade” (e até aí, sobretudo aí, o fingimento é necessariamente maior). No seu penúltimo romance – Irene ou o Contrato Social – Maria Velho da Costa assegura que: “a arte não é nada à vida”. Mas como isso não é totalmente evidente, nem para a própria escritora que, num outro livro – O Mapa Cor de Rosa, garante o oposto: “Tudo, tudo é autobiográfico.” Entre tantos mais exemplos, Gertrud Stein escrevera: “You are of course never yourself”. E Fernando Pessoa, nestes conhecidos versos do poema que tem por título, et pour cause, “Autopsicografia“: “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”.
Além disso, também quem pensa e escreve sobre qualquer forma de arte, apesar do seu eventual desejo de “objectividade”, vê, ouve, lê, escreve de ‘modo oblíquo’ em relação àquilo que comenta. É que não se pode dizer o quer que seja sem algum enviesamento, dada a inevitável projecção da própria subjectividade na leitura e percepção seja do que for.

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